A Minha História – D. Afonso Henriques –

Nasci segundo uns, no ano de 1109 em Viseu, segundo outros em 1111 em Guimarães. Não se entendem nem quanto à data, nem quanto ao local e eu, embora presente no evento, não tenho memória do mesmo.

A Senhora minha Mãe, D. Teresa De Aragão, ora ocupada na gerência do Condado, ora ocupada com o Galego Fernão Pérez de Trava, também nunca mo disse. De tão ocupada que estava, acabou por me entregar a Dom Egas Moniz de Ribadouro, que se encarregou de me criar.

De meu Pai, Henrique de Borgonha, não tenho eu qualquer memória. De qualquer modo, posso aqui adiantar que nunca fui aleijado em criança, não bati na minha Mãe em adolescente, nem medi dois metros depois de adulto, como rezam algumas crónicas.

Tudo isto foi inventado por uma cronista, uma besta-quadrada que vivia paredes meias com um alambique e bebia que nem uma esponja. Umas boas espadanadas na lombeira, haveria de levar se eu lhe colocasse os olhos em cima. Gente assim deixa-me danado. Bem…adiante!

A minha vida permanece um mistério, até para mim mesmo. Parece que foi em 1128 que corri com os Galegos do Condado, na batalha de São Mamede e vem daqui o boato de que bati na velhota. Na verdade o que fiz foi apenas indicar-lhe o caminho da Galiza.

Outro dos boatos sobre a minha pessoa, provem da batalha de Ourique, onde fui aclamado Rei. Mais uma vez, as opiniões se dividem, ninguém parece saber onde se deu a batalha. Parece que vi Cristo pregado na cruz nas vésperas da batalha, certamente fruto da bebida que ingeri durante esse dia.

Derrotei a Moirama toda nesse dia. Mais viessem, mais caiam. Era cada tiro, cada melro. Embalado, desatei a conquistar terras por ai abaixo, Leiria em 1145, Santarém em 1147, Lisboa, Almada e Palmela nesse mesmo ano.

Lisboa foi difícil. Não fosse uma ajudinha dos cruzados que iam a caminho da Terra Santa, desconfio que ainda hoje estava por conquistar. A Moirama era muita e um Homem não é de ferro. Enfim… adiante.

Consegui conquistar Alcácer em 1160, depois de muito suar. A partir daí foi sempre a abrir e em pouco tempo todo o Alentejo era meu.

As coisas começaram a correr mal em 1169, quando tive que me deslocar a Badajoz para socorrer o Geraldo Sem Pavor, um tipo com pouco tino mas a quem eu devia alguns favores. O gajo cercara aquilo e não andava nem desandava. Fico danado com tipos assim.

Batalha de má memória. Vá lá saber-se como, cai do cavalo. Eu até já tinha caído do cavalo mais vezes, ora com sono, ora com a bebida. Mas desta vez a coisa deu para o torto. Parti a perna e ainda por cima fui feito prisioneiro pelo Rei Fernando II que por acaso era meu genro. Isto é que foi uma gaita. Por vergonha ou por vontade, o tipo lá me libertou. Voltei ao Reino, mas médicos de jeito, nem um. Fiquei aleijado para o resto da vida.

António Góis 01/2018

 

Mais um texto, Lobo Azul Produções

 

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